terça-feira, 29 de maio de 2012

Ao acordar, nos dias de hoje.

Foto de Sindri / Performance Fabiano Barros


Abrir os olhos pela manhã já seria um grande esforço. Adiou o despertador umas seis vezes. Para ser mais específico não contei ao certo quantas vezes ela adiou o despertador. Até porque tenho ódio de despertadores, no auge do sonho, no ápice decisivo dos pesadelos, naquele momento de emoção intensa o gongo vem e salva (ou destrói). E nada se pode saber sobre a continuidade da história. Voltando ao despertar desta relapsa donzela e deixando de lado meus dissabores sobre relógios e despertadores, ela acorda num salto desesperador, repetindo, quase como um mantra de autoafirmação “não dependo desta merda de emprego”, algo que lhe faz pensar se isso não é uma defesa contra os olhares reprovativos do chefe, como se estivesse adiantando as falas para lhe arrastar na fuça “enfia seu contrato de trabalho no cu”, ou coisas do tipo. Por fim, ela se convence da necessidade das contas e do aluguel que lhe persegue como uma sombra. Corre como louca, chega na porta do metrô e entra pensando aliviada “foda-se ainda tenho dez minutos de tolerância”. Mas que tolerância? Tolerância para si? Para as pessoas atropelando seus pensamentos? Ou para os rostos entediados observados sobre o reflexo das janelas do trem? Ela suspira, fecha os olhos por dez segundos, decide por os fones de ouvido e apertar o player. A letra da musica dizia assim “estava na desalegria vagando pela cidade, o mormaço da saudade me pegou ao meio dia”. Abriu os olhos e lacrimejou, não havia mormaço para sentir que não fosse respiração dos homens de terno naquele trem lotado, a saudade não tinha hora pra chegar e costumava estender-se por todos os dias. 


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