quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Verbo: Degustar.



Chegamos, eu sentei no sofá e comecei a desmontar a pedrinha para colocar em seda. Ele observando, fitando os olhos em todo o processo, olhos verdes, o sangue circulava pelas pálpebras, são coisas que eu olhava disfarçadamente pra ele não perceber e notar que na verdade eu já estava desenhando as suas partes íntimas há umas boas semanas. Enquanto eu ficava ali, naquela distração, ele se aproximou e sentou no chão de pernas cruzadas, silenciosamente, pôs a mão no meu pé direito, deu pequenos beijos leves, passava os dedos macios pelas dobras do pé, depois trouxe para si o pé esquerdo, fazia um movimento suave, a ponta dos dedos encostava e me causava um certo arrepio, algo que até acalentava, me acalmava e esquentava o corpo. Será que é possível entender isso? Pois bem, eu não sei se é possível entender, mas havendo dúvidas as experiencias relatam boas coisas.

Estávamos presos em algum vazio, talvez medo, julgamentos ou pressões coisas que a rotina da vida comum faz com as pessoas. Mas minha pobre mania de desprendimento veio a tona e naquele momento, eu fiquei nua e transparente, feliz pela atuação do rapaz que passeava com a língua entre os dedos do meu pé. A saliva era quente, uma língua espessa, ele fazia uma cara de vagabundo, como se achasse na sua ação singular a oportunidade de realmente ser um vagabundo.
E eu, que antes estava numa redoma de prisões e medos, me encontro agora um tarefa importante, a escolha de um verbo para isso. E nos resquícios de dissabores do porão da minha memória, uma palavra brilha, como algo valioso que encontramos dentro de uma caixa empoeirada,  de longe acena o verbo DEGUSTAR. E assim era, degustávamos um ao outro, ele começava por meus pés, eu não resistia, quando a boca esquentava e o corpo cedia, eu ia direto ao ponto. As roupas não aguentavam e por si só desabotoavam-se e camuflavam-se entre as sombras, por saber que demoraríamos muito para encontra-las novamente.

E como se não fosse suficiente o prazer do toque e do sabor das línguas no corpo, nos acompanhava uma explosão intensa de mosaicos coloridos, era inexplicável, talvez fosse como estar apaixonado por mais de 27 mil vezes e não haver controle da temperatura no próprio corpo. Haviam proporções astronômicas de diferentes tipos de felicidades, regadas a discussões sobre quem manda, quem obedece, quem apanha e quem bate.

Sem mais nem menos tons azulados invadiam o quarto. Foi quando nos demos conta que o presente, por ser presente nos transportava para lembrar que passados alguns minutos estes instantes não voltariam. Ficaríamos presos pela lembrança e memória. Ele me diz um pouco chateado com a situação "isso tudo vai deixar de existir em algum momento". Eu não soube como contornar para faze-lo sentir-se melhor. Concordei e pensei que a preciosidade das coisas estará nas historias que forem contadas a partir delas e que em algum momento eram feitas para serem perdidas, os movimentos são cíclicos. Me lancei e perdoei tudo que um dia houve de ruim no mundo, aceitei se haveria algo de bom para vir. Sempre haverá, haverá mesmo?

O dia ameaçava aparecer e a luz do sol com ele, nos aconchegamos para dormir. Mas dias claros parecem injustos, o telefone toca, o alarme insiste, as buzinas cutucam, a construção na casa da frente parece egípcia por tantos movimentos. E a vida real nos invade, ainda um pouco tonto, me disse com um ar cansado "desculpa, mas no estado em que estou, não posso atender".