sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sob o olhar das portas


Saltou para fora do criado-mudo e me observou pelo dia todo 

Antes era abrindo e fechando a geladeira, 
"Isso tudo é ansiedade?" perguntava.

Quanto a mim, não encontrava nada de novo, nem especial, nem doce, nem salgado.
Uma garrafa qualquer de uma bebida destilada que não me interessava.
Acho que vou sair pra comprar cerveja. 
Horas depois e eu nem fui. 
Sentei alí no cantinho da cama, folheava desenhos antigos, livretos em que certas frases eu abandonei e não senti falta.
Eu não conseguia encontrar uma razão, mudava de canal, brincava com o botão do controle. 
Apontei pela janela, ela me disse que o viaduto fica incontrolável, o transito é maldito.
"Liz, a sua voz está me irritando, cale a boca, por favor." Eu disse.
Mas não havia nada demais a Tv é tediosa, as pessoas dentro da caixinha são tão estúpidas, quem assiste isso?
"pela madrugada deve passar um filme bom!"

E nada de novo. 
O posto da esquina está aberto, melhor comprar cigarros.
E aqueles olhos expressivos, seguiam o caminho de meus passos, esperou por alguns instantes e disse:
"Até quando a ansiedade vai preencher espaço das coisas que não são? 
Desde quando você encontra as respostas na geladeira, no canal aberto ou nos cigarros?"

"Ah, querida, eu ainda não sei. Suei frio por dezenas de vezes, acabei com as unhas, falei sozinha por noites das quais perdi a conta. 
Me deu febre, tive vergonha de abrir as mãos e enlouqueci. 
Até agora nada".

"Tudo bem, chega e admitir erros assim publicamente, fume quantos cigarros quiser. 
Sua vida e seu pulmão estão me saindo verdadeiros desertos. Até outro dia."