domingo, 17 de junho de 2012

O desastre causado em função de um nó mal feito


Encapsulada por pequenos desgostos e afim de solucionar problemas sem solução, estive disposta a dissolver-me em soberba, abraçar o egoísmo e aniquilar certas amarras.

Deparei-me com a proposta de libertar-me. Li o velho Buk, era o companheiro de sempre dentro do meu pessimismo, cheguei no trecho do Pássaro Azul e entendi perfeitamente a sua mensagem.
A partir de então, desconstruí todas as coisas pelas quais agregava algum tipo de valor, olhei-me no espelho e não via nada além da imagem, toquei no reflexo, eram olhos nos olhos, e disse "foda-se", a imagem me dizia que não, quase que me implorando, mas eu lhe repetia "foda-se". Virei de costas, tomei coragem (ou seria um medo excessivo?) e  dei início a preparação de um perigoso ritual.

Lembrei que na área de serviço havia uma corda, era firme e aguentaria meu peso. Ainda bem que minha avó me ensinou a dar nós, medi o pescoço a saber se caberia e se ainda me sobraria espaço para pendurar. Olhei ao redor do quarto e escolhi um ponto especifico no teto para amarrar. Era próximo a janela, o local onde ficam as cortinas. Precisava de um tamborete ou um banco para chutar no momento final. Provavelmente pela altura, imagino que seria asfixiada. O que pra mim era vantajoso. Não gostaria de um osso quebrado, principalmente se tratando do meu pescoço, também me parecia romântico sentir pulsar a artéria, o sangue pediria passagem, a vida forçaria a entrada e a morte trancaria cadeados faria o corpo pesar, a corda apertar e olhos fecharem. Não haveria oportunidade para hesitar. Era uma única vez.

Então fiz o nó, pendurei, subi no banco, enfiei a cabeça e fiquei contemplando o espaço vazio das paredes do quarto, era a ultima cena que guardaria na memória e a mesma deixaria de existir em pouco tempo.

A parede cor de gelo convidava-me a perceber as silhuetas dos objetos ao redor. Havia uma simpática sombra vinda do guarda-roupa, era projetada por um ponto de luz que me invadia pela fresta da janela. Olhei pela fresta, a rua estava infestada, eram carros, pessoas, animais domésticos abandonados, outros com seus donos trazidos entre coleirinhas estilosas. Das janelas das casas, acendiam a luz, era fim de tarde, num limiar entre dia e noite, enquanto no meu quarto não havia tempo, a escuridão criava seu império, os demônios pessoais gritavam. As paredes dos vizinhos ficaram transparentes, entendia as conversas de tios e tias combinando passeios de domingo, pais e mães discutindo relações inconsistentes, filhos choramingando por doces na mesa ou por roupas da moda. Aquilo me deu náusea.
Chutei o banco com violência, mas o nó da corda era mais frágil que a minha personalidade, no primeiro pulsar de artérias, no primeiro gesto de arrependimento e da sacudida do corpo em função do asfixiamento ele desatou e caí no chão.

Quebrei o tornozelo e a dobra do pulso da mão direita, aniquilei meus principais carrascos, companheiros decisivos de todo o ritual. Chorei pela dor. O inchaço se formava entre a articulação do pulso.  Era o corpo ressentido, depreciado, fazendo justiça as minhas decisões, dando passagem ao sangue, deixando livre o caminho da vida. A morte sairia pela janela, destrancando cadeados, não havia o que pesar o nó estava desfeito.

Sem ter quem acusar e ajuda para recorrer. Sentindo a humilhação do castigo recebido.
Gritei na esperança de contestar, "vovó a culpa é toda SUA!"



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